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Artigo: Macacão, a gravata e a ética

- Postado, Domingo, 20 Outubro 2024 18:03 Por
Artigo: Macacão, a gravata e a ética Imagem : Divulgação

 José Bezerra Marinho Júnior é graduado em Direito, Diretor-Geral da Escola da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte e Diretor de Educação e Inovação da ABEL

Há algum tempo, estava em Brasília conduzindo um seminário sobre Negociação. Eram 30 participantes de 25 diferentes Organizações públicas e privadas.

O foco estava centrado em um dos princípios da abordagem com que trato o tema.

Afirmei naquela oportunidade que em uma negociação, conduzir-se eticamente e estimular o outro para que o faça, é a melhor alternativa para a corresponsabilidade com o que for pactuado e, por consequência, o caminho para resultados sustentáveis no longo prazo.

Um participante me interrompeu: “Professor, quer dizer que é possível ter bons resultados, mesmo sendo ético?”

Anos depois, encontrei em Zygmunt Bauman, a mesma pergunta, em nova formulação, dessa vez apenas para fins de argumentação. “Será possível, sob a égide do capitalismo, viver a dialética, o paradoxo, entre ser ético e competitivo?”

A questão me levou a pensar duas coisas.

A primeira. A ética estava sendo percebida como uma complicação a mais na luta pela vida e que, para alcançarmos bons resultados, devemos desconsiderá-la e, quando não for possível, tangenciá-la e ir em frente, ainda que com certa culpa. Ser ético, portanto, significava querermos parecer “bonzinhos”, para terminarmos sendo bobos.

Passava longe a ideia de que a ética é requisito essencial para que se tenha uma vida boa. Para que valha a pena viver em sociedade. Ou seja, um comportamento bom para todos. Onde todos ganham.

Sobre isso é interessantíssimo observar a revolta – sim, a mais pura revolta – entre os poucos que ganham, quando uns poucos dentre os poucos que ganham, ganham muito mais do que o restante dos poucos, em muito pouco tempo. Você entendeu, claro.

A segunda. O transgressor da conduta ética fica pasmo, verdadeiramente perplexo, quando o feitiço, de uma hora para outra, dá uma bela girada e explode na sua própria cabeça. Edgar Morin chama isso de “efeito bumerangue”.

Querem ver? A revista EXAME, faz alguns anos, abriu uma matéria de três páginas, com o título “Ladrões de Casaca”.

Lá para as tantas, diz o seguinte: “As empresas defendem-se razoavelmente quando o ladravaz usa macacão. Mas são pateticamente vulneráveis quando ele veste paletó e gravata, tem sala própria e anda a bordo de carros cedidos pela companhia”.

Não se tratava de nenhuma consideração hipotética. Noticiava-se um fato ocorrido na poderosíssima Dow Elanco, uma associação do grupo Dow com a Eli Lylly para a fabricação de produtos agroquímicos.

O furto, até onde tinha sido apurado naquela época, chegava a US$20 milhões e envolvia o Diretor de Vendas, além de dez dos principais executivos, todos com dez a quinze anos de casa.

Na mesma matéria há um box com registro de casos semelhantes na General Motors e na Bozzano-Revlon. A diferença é que as outras tentaram abafar e cuidaram de demitir os envolvidos. A Dow decidiu divulgar.

Minha experiência como consultor em diferentes organizações, me autoriza a afirmar que o grau de corrupção interna na área privada é surpreendentemente alto, mesmo quando comparado com as calamitosas notícias que recebemos todo dia sobre o despudor de certas personagens no setor público.

Para que se tenha uma ideia das proporções, basta saber que existe hoje – com grande solicitação do mercado – empresas de consultoria especializadas em descobrir e desmontar redes de ladroagem interna, constituídas por altos executivos. Note bem, não me refiro às clássicas auditorias internas ou a ação do controller. Não. Trata-se de algo mais especializado e que visa alcançar as ações que escapam dos métodos tradicionais de fiscalização.

Você está querendo saber como chegamos a este ponto? Não é difícil a reconstituição da trilha percorrida. O caminho até a chamada “causa raiz”.

Houve um tempo, asseguro aos mais jovens – houve sim um tempo – em que, quando um funcionário público era flagrado em um ato de corrupção, deixava toda uma família envergonhada. Vergonha essa que, não raro, contaminava gerações. Havia exceções. O cinismo e o despudor sempre existiram claro, mas, pasmem, chegava-se a suicídios!

Isso, hoje, é coisa do passado. Assim como mentira virou fake, o novo nome do roubo é “jogada”, ou então se incorporou ao significado da palavra negócio, o ato de roubar. Vergonha passou a ser o oposto: ter oportunidade de se corromper e recusá-la; não tendo oportunidade, não a criar; e ao corromper-se ser descoberto.

Gradativamente as empresas foram abandonando sua preocupação com a produtividade, com seus custos – comprar melhor, recorrer a processos inovadores, diminuir ou eliminar perdas, ter pessoas capacitadas, motivadas, criativas, comprometidas etc. – para se voltarem, através da ação de competentes corruptores, para a obtenção de resultados, literalmente, a qualquer preço.

Foi criada uma verdadeira tecnologia de corrupção. A valorização e as melhores remunerações deixaram de ser do profissional que desenvolvia um processo mais econômico e foram para aquele capaz de “montar um esquema” com alguém – do setor público ou mesmo de outra empresa privada – que ordenava a despesa, aprovava o preço, dirigia uma licitação ou arbitrava o valor de venda ao consumidor de determinado produto.

Aqui uma ligeira pausa para lembrar que, o que acaba de ser descrito acima é uma máquina de deformação moral e de geração de inflação.

Assim vieram as coisas acontecendo. Os dirigentes das organizações viam, sentiam em suas vidas, a crescente velocidade das mudanças. Percebiam quanto o mundo havia mudado nos últimos cinco ou dez anos, mas se conduziam como se nada fosse mudar dali para a frente. O futuro era olhado como uma extensão do presente, quase em linha reta.

Mas a mudança não pede autorização, nem avisa que está em curso. E novos valores foram aparecendo na sociedade. De repente, em 2004, a ONU, à frente o Secretário-Geral Kofi Annan, publicou um Relatório, em parceria com grandes bancos e fundos de investimento, dizendo ser inadiável que as instituições financeiras passassem a considerar critérios ambientais, sociais e de governança – olhe aí de onde vem o ESG – ao decidirem em quais empresas iriam investir. Some-se a isso o crescimento das redes planetárias de comunicação, os clientes cada vez mais conscientes de seus direitos, a sociedade se organizando na defesa do consumidor, os órgãos de controle do Estado dispondo de melhores e mais amplos mecanismos de fiscalização e controle, a modernização das leis de licitação e contratos, cumprimento rigoroso de regras de compliance, e por aí vai.

Diante de tudo isso, a produtividade tornou-se uma ordem!

E, para obter maior produtividade, as empresas tiveram que “olhar pra dentro”, para a tal da eficiência, e não só para a eficácia, como a maioria vinha fazendo. E aí… Meu Deus! A corrupção havia tomado conta delas.

Estimularam e capacitaram seus executivos a criarem ou alimentarem corruptos. Acreditavam ser possível fabricar corruptores sem formar corruptos.

Justificava-se, aprovava-se e aproveitava-se da existência de ladrões no setor público. Nas suas organizações, não! A sociedade podia ter dirigentes corruptos. Suas empresas, não!

Pois não é que estão descobrindo que eles estão também “do lado de dentro”.

A matéria da “Exame” conclui assim:

“Casos como esses não são exclusividade da Dow Elanco. Eles podem acontecer em qualquer companhia. O problema, porém, transcende os muros da empresa. É ilusão supor que tais desvios não sejam repassados aos custos e, por tabela, aos preços finais dos produtos. No final quem paga a conta é o consumidor. Porque para os ladrões de casaca quase sempre nada acontece”.

Afinal, para desencanto de muitos, dos que conhecem apenas a linguagem da propina, ser ético tem voltado a ser um valor. Empresariar é mais do que apenas conversar e corromper.

Está na hora de levarmos à prática novos valores. De iniciarmos um processo de depuração, de letramento ético.

A ética e a moral de uma sociedade têm a profundidade de uma geração, e, como o presente é o futuro em preparação, é hora de combinar que futuro queremos. Afinal, é no futuro que passaremos o resto das nossas vidas.

A sociedade é um contrato entre os que estiveram aqui, os que estão e os que virão. Deixo vocês com a exortação de Edgar Morin: “se não podemos construir o melhor dos mundos, vamos, pelo menos, construir um mundo melhor.”

 

MACACÃO, A GRAVATA E A ÉTICA

José Bezerra Marinho Júnior*

Há algum tempo, estava em Brasília conduzindo um seminário sobre Negociação. Eram 30 participantes de 25 diferentes Organizações públicas e privadas.

O foco estava centrado em um dos princípios da abordagem com que trato o tema.

Afirmei naquela oportunidade que em uma negociação, conduzir-se eticamente e estimular o outro para que o faça, é a melhor alternativa para a corresponsabilidade com o que for pactuado e, por consequência, o caminho para resultados sustentáveis no longo prazo.

Um participante me interrompeu: “Professor, quer dizer que é possível ter bons resultados, mesmo sendo ético?”

Anos depois, encontrei em Zygmunt Bauman, a mesma pergunta, em nova formulação, dessa vez apenas para fins de argumentação. “Será possível, sob a égide do capitalismo, viver a dialética, o paradoxo, entre ser ético e competitivo?”

A questão me levou a pensar duas coisas.

A primeira. A ética estava sendo percebida como uma complicação a mais na luta pela vida e que, para alcançarmos bons resultados, devemos desconsiderá-la e, quando não for possível, tangenciá-la e ir em frente, ainda que com certa culpa. Ser ético, portanto, significava querermos parecer “bonzinhos”, para terminarmos sendo bobos.

Passava longe a ideia de que a ética é requisito essencial para que se tenha uma vida boa. Para que valha a pena viver em sociedade. Ou seja, um comportamento bom para todos. Onde todos ganham.

Sobre isso é interessantíssimo observar a revolta – sim, a mais pura revolta – entre os poucos que ganham, quando uns poucos dentre os poucos que ganham, ganham muito mais do que o restante dos poucos, em muito pouco tempo. Você entendeu, claro.

A segunda. O transgressor da conduta ética fica pasmo, verdadeiramente perplexo, quando o feitiço, de uma hora para outra, dá uma bela girada e explode na sua própria cabeça. Edgar Morin chama isso de “efeito bumerangue”.

Querem ver? A revista EXAME, faz alguns anos, abriu uma matéria de três páginas, com o título “Ladrões de Casaca”.

Lá para as tantas, diz o seguinte: “As empresas defendem-se razoavelmente quando o ladravaz usa macacão. Mas são pateticamente vulneráveis quando ele veste paletó e gravata, tem sala própria e anda a bordo de carros cedidos pela companhia”.

Não se tratava de nenhuma consideração hipotética. Noticiava-se um fato ocorrido na poderosíssima Dow Elanco, uma associação do grupo Dow com a Eli Lylly para a fabricação de produtos agroquímicos.

O furto, até onde tinha sido apurado naquela época, chegava a US$20 milhões e envolvia o Diretor de Vendas, além de dez dos principais executivos, todos com dez a quinze anos de casa.

Na mesma matéria há um box com registro de casos semelhantes na General Motors e na Bozzano-Revlon. A diferença é que as outras tentaram abafar e cuidaram de demitir os envolvidos. A Dow decidiu divulgar.

Minha experiência como consultor em diferentes organizações, me autoriza a afirmar que o grau de corrupção interna na área privada é surpreendentemente alto, mesmo quando comparado com as calamitosas notícias que recebemos todo dia sobre o despudor de certas personagens no setor público.

Para que se tenha uma ideia das proporções, basta saber que existe hoje – com grande solicitação do mercado – empresas de consultoria especializadas em descobrir e desmontar redes de ladroagem interna, constituídas por altos executivos. Note bem, não me refiro às clássicas auditorias internas ou a ação do controller. Não. Trata-se de algo mais especializado e que visa alcançar as ações que escapam dos métodos tradicionais de fiscalização.

Você está querendo saber como chegamos a este ponto? Não é difícil a reconstituição da trilha percorrida. O caminho até a chamada “causa raiz”.

Houve um tempo, asseguro aos mais jovens – houve sim um tempo – em que, quando um funcionário público era flagrado em um ato de corrupção, deixava toda uma família envergonhada. Vergonha essa que, não raro, contaminava gerações. Havia exceções. O cinismo e o despudor sempre existiram claro, mas, pasmem, chegava-se a suicídios!

Isso, hoje, é coisa do passado. Assim como mentira virou fake, o novo nome do roubo é “jogada”, ou então se incorporou ao significado da palavra negócio, o ato de roubar. Vergonha passou a ser o oposto: ter oportunidade de se corromper e recusá-la; não tendo oportunidade, não a criar; e ao corromper-se ser descoberto.

Gradativamente as empresas foram abandonando sua preocupação com a produtividade, com seus custos – comprar melhor, recorrer a processos inovadores, diminuir ou eliminar perdas, ter pessoas capacitadas, motivadas, criativas, comprometidas etc. – para se voltarem, através da ação de competentes corruptores, para a obtenção de resultados, literalmente, a qualquer preço.

Foi criada uma verdadeira tecnologia de corrupção. A valorização e as melhores remunerações deixaram de ser do profissional que desenvolvia um processo mais econômico e foram para aquele capaz de “montar um esquema” com alguém – do setor público ou mesmo de outra empresa privada – que ordenava a despesa, aprovava o preço, dirigia uma licitação ou arbitrava o valor de venda ao consumidor de determinado produto.

Aqui uma ligeira pausa para lembrar que, o que acaba de ser descrito acima é uma máquina de deformação moral e de geração de inflação.

Assim vieram as coisas acontecendo. Os dirigentes das organizações viam, sentiam em suas vidas, a crescente velocidade das mudanças. Percebiam quanto o mundo havia mudado nos últimos cinco ou dez anos, mas se conduziam como se nada fosse mudar dali para a frente. O futuro era olhado como uma extensão do presente, quase em linha reta.

Mas a mudança não pede autorização, nem avisa que está em curso. E novos valores foram aparecendo na sociedade. De repente, em 2004, a ONU, à frente o Secretário-Geral Kofi Annan, publicou um Relatório, em parceria com grandes bancos e fundos de investimento, dizendo ser inadiável que as instituições financeiras passassem a considerar critérios ambientais, sociais e de governança – olhe aí de onde vem o ESG – ao decidirem em quais empresas iriam investir. Some-se a isso o crescimento das redes planetárias de comunicação, os clientes cada vez mais conscientes de seus direitos, a sociedade se organizando na defesa do consumidor, os órgãos de controle do Estado dispondo de melhores e mais amplos mecanismos de fiscalização e controle, a modernização das leis de licitação e contratos, cumprimento rigoroso de regras de compliance, e por aí vai.

Diante de tudo isso, a produtividade tornou-se uma ordem!

E, para obter maior produtividade, as empresas tiveram que “olhar pra dentro”, para a tal da eficiência, e não só para a eficácia, como a maioria vinha fazendo. E aí… Meu Deus! A corrupção havia tomado conta delas.

Estimularam e capacitaram seus executivos a criarem ou alimentarem corruptos. Acreditavam ser possível fabricar corruptores sem formar corruptos.

Justificava-se, aprovava-se e aproveitava-se da existência de ladrões no setor público. Nas suas organizações, não! A sociedade podia ter dirigentes corruptos. Suas empresas, não!

Pois não é que estão descobrindo que eles estão também “do lado de dentro”.

A matéria da “Exame” conclui assim:

“Casos como esses não são exclusividade da Dow Elanco. Eles podem acontecer em qualquer companhia. O problema, porém, transcende os muros da empresa. É ilusão supor que tais desvios não sejam repassados aos custos e, por tabela, aos preços finais dos produtos. No final quem paga a conta é o consumidor. Porque para os ladrões de casaca quase sempre nada acontece”.

Afinal, para desencanto de muitos, dos que conhecem apenas a linguagem da propina, ser ético tem voltado a ser um valor. Empresariar é mais do que apenas conversar e corromper.

Está na hora de levarmos à prática novos valores. De iniciarmos um processo de depuração, de letramento ético.

A ética e a moral de uma sociedade têm a profundidade de uma geração, e, como o presente é o futuro em preparação, é hora de combinar que futuro queremos. Afinal, é no futuro que passaremos o resto das nossas vidas.

A sociedade é um contrato entre os que estiveram aqui, os que estão e os que virão. Deixo vocês com a exortação de Edgar Morin: “se não podemos construir o melhor dos mundos, vamos, pelo menos, construir um mundo melhor.”

 

José Bezerra Marinho Júnior é graduado em Direito, Diretor-Geral da Escola da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte e Diretor de Educação e Inovação da ABEL.

Última modificação em Segunda, 04 Novembro 2024 18:42