Palmas e lágrimas para Elza Soares

- Postado, Quinta, 20 Janeiro 2022 22:52 Por
Palmas e lágrimas para Elza Soares Foto: Divulgação

Por Wagner Ribeiro

“Levo minha mãe comigo
Embora já se tenha ido
Levo minha mãe comigo
Talvez por sermos tão parecidos
Levo minha mãe comigo
De um modo que não sei dizer
Levo minha mãe comigo
Pois deu-me seu próprio ser”

Na contramão de minha geração, duas figuras tomaram minha adolescência: Elza Soares e Jean-Paul Sartre, este já morto. Ela invadia minha mente a partir dos discos na vitrola ou das fitas k7 que eu ouvia no walkman enquanto andava de bicicleta curtindo minha solitude juvenil.

A voz rouca de Elza metabolizava em poesia a dor que só ela conhecia, porque era só dela. Mas eu sabia, Sartre me ensinou: ao falar de mim falo da universalidade dos meus semelhantes. De certa forma, a dor-Poesia da rainha negra era a minha dor, era a dor de todo pobre que conhecia o horror da necessidade, era a dor do brasileiro periférico.

Lembro de uma situação que sai na porrada com um colega roqueiro por causa da Elza. Eu tinha 15 anos. Comentei numa roda que a voz da Elza era única no Brasil. O otário virou pra mim e disse: a Elza Soares é uma puta, acabou com a vida do Garrincha e não canta nada, só sabe gritar, parece uma macaca.

Dei um soco na boca dele. A turma do “deixa pra lá” aglomerou para impedir que eu terminasse de quebrar a cara do escroto. Eu não podia deixar passar o machismo, o racismo e a ofensa contra Elza. Eu não podia me curvar a mentira propagada na época pelos amantes da ditadura.

Na época, eu estava diante da mesma barbárie que ressurgiu dos esgotos com o atual presidente do Brasil. Me orgulho do soco dado e do pequeno gesto de coragem em defender Elza, em defender a mulher preta e guerreira. Ao defendê-la eu defendia todas as Elzas, todas as Marias que carregam lata d’água na cabeça. Eu defendia a música brasileira.

As cortinas se fecharam para a carne de Elza, mas jamais se fecharão para a alma dela. Elzinha é eterna. Hoje, é com muitas lágrimas derramadas mas também com muitas palmas que celebro existência e me despeço do corpo da mulher do fim do mundo. Morreu como viveu: com luta, com dignidade, sobretudo, cantando.

Ave Elza,
Do do cóccix até o pescoço!

 

 

 

 

 

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